DE OLHOS FECHADOS
“Fechei os olhos para não te ver
e a minha boca para não dizer…
E dos meus olhos fechados desceram lágrimas que não enxuguei,
e da minha boca fechada nasceram sussurros
e palavras mudas que te dediquei…”
Trecho de “Amar”, de Mário Quintana
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Confesso que hoje tive uma certa pena dos peixes, e por um simples motivo: eles não fecham os olhos.
Na manhã desta quarta-feira, como de costume, acordei reflexivo. Chateado com algumas coisas, esperançoso com outras mas com algo mais forte que me trouxe aqui para escrever.
Antes do desenvolvimento do que segue, tento resumir meus pensamentos: o fechar dos olhos refletem as mais profundas e poéticas expressões de sentimento que um ser humano pode ter.
Minha conclusão ficaria maior se eu tivesse colocado “expressões de sentimento E diálogo com o divino” mas acredito que ficaria reduntante. Acrescentar que, eventualmente, o fechar dos olhos também pode significar o nada, o vazio, também não faria sentido uma vez que o “nada” também significa sentir e, por que não, a conexão com sua própria divindade.
Descomplico.
Se encontrarmos a expressão “fechar os olhos” numa palavra cruzada, ou num desses programas da atual TV aberta, provavelmente nos remeteremos a algo relacionado a sono, ao adormecer. Pois bem. Neste momento, é ao fechar os olhos que abrimos as portas aos sonhos, a um mundo gigantesco onde acontecem, preferencialmente, maravilhas onde não há limites, onde absolutamente ninguém lhe diz o que fazer, como fazer ou o que você deve ser. Absolutamente NADA te limita num sonho. Na verdade algo muito parecido com a realidade com a diferença que, no mundo real, nós parecemos ser carentes de limites para “seguir em frente”. Estranho, não? Mas isso já são outros quinhentos.
Pense, além do sono, em qual foi a última vez em que você fechou os olhos. Foi quando algo caiu no seu pé? Aquela topada de canela, de madrugada, na mesinha de centro? Numa espreguiçada gostosa acompanhada daquele bocejo? Durante um beijo bom? Na mordida daquele crap suiço que você não comia há muito tempo?
Lembremos também que, para meditar, no momento de ligação com Deus, nosso Eu interior, anjo da guarda, mentor ou simplesmente relaxar, também fechamos os olhos.
Reparem os senhores que todas as cituações citadas estão relacionadas, de certa forma, a um sentimento de bem estar ou não e, seja qual for, você não passa desapercebido por eles. Até mesmo o simples piscar dos olhos para a lubrificação dos olhos também está relacionada a uma necessidade do corpo.
E quando o piscar é voluntário? Uma piscada de malícia, de apoio, de paquera ou de apenas um cumprimento. Quanto se pode fazer em silêncio e quão forte pode ser o significado de um simples piscar de olhos. Aliás, é o piscar que geralmente separa o momento dos olhos lacrimejando de um choro.
Lembro que no meu ensino médio um colega questionou a vários outros colegas, inclusive a mim, o que fazíamos enquanto bebíamos água no bebedouro. Não lembro o que respondi mas lembro a responsta de um meio primo que, após pensar um pouco, concluiu – “eu fecho os olhos enquanto bebo água no bebedouro”. Achei interessante como tal atitude está tão relacionada ao prazer. Sim, a algumas dores também mas, em sua maioria, ao prazer.
E por falar em prazer, como ficam seus olhos no exato momento do… do prazer? Sabem bem do que falo e os gaiatos de plantão hão de dizer que os olhos estarão “virados” mas é quase que regra que os mesmos se fechem no momento do…. bom…. enfim! Os olhos geralmente ficam cerrados nos maiores prazeres de um casal, seja na unificação dos corpos ou durante aquele beijo gostooooosooo ou, simplesmente, no descansar do rosto no peito do outro ou no encaixe entre a cabeça e o ombro ou mesmo, ainda, no abraço gostoso enquanto a boca descansa num beijo que não cessa colado ao ombro ou ao pescoço de sua paixão. Neste momento o nariz, praticamente encostado ao corpo do outro sentindo o cheiro bom de quem te abraça e os olhos… fechados.
E continuando no abraço… como disse uma vez a minha professora Rose, “A dança é o abraço que acontece durante o tempo de uma canção” (ou algo assim). E antes de continuar no tema central deste texto, lembro de um papo que tive há tempos com o Carlinhos, a quem não conhece, meu afilhado; a cada retorno de balada a gente voltava empolgado, conversando sobre quem havia conhecido, quem estava lá, amigos, professores, Djs, as músicas que haviam tocado e, comumente, a contabilidade de garotas que a gente NÃO havia “pegado”. Não só uma vez, não só duas e nem três. O fato de “não pegar ninguém” sempre foi mais regra que exceção e hoje compreendo, de certa forma, o porque disso.
Dentro de um namoro, o potencial de um relacionamento íntimo é naturalmente significativo, no entanto, em não raros momentos, o sexo não há de ser prioridade para a manutenção de um namoro.
Dentro de um relacionamento “sem nome”, a possibilidade de um namoro é algo forte, no entanto, não há de ser prioridade para a manutenção de tal relacionamento. O namorar, o noivar, o casar há de ser processo mais que natural, orgânico, e resultado de um relacionamento estável e “acidentalmente” gostoso.
É assim também com a amizade entre sexos opostos onde não há a obrigatoriedade de que algo mais aconteça. Não raro, longas amizades cessam após a tentativa, um tanto quanto forçada, de o casal ter “algo mais”.
O mesmo vale para uma balada. É óbvio, e seria muita hipocrisia de minha parte, que não alimente o ego de um cara, ainda mais no auge de sua adolescência o dizer “peguei 3 hoje” mas a maturidade uma hora chega e prioridades mudam. Estar numa festa em que você se sente em casa, teoricamente, é ter, potencialmente, a possibilidade de sair de lá com alguém, no entanto, na imensa maioria das vezes eu danço. Literalmente! E, sinceramente, não reclamo. Quando meus olhos fecham, imagino, enganam aqueles que concluem minha entrega. De fato me entrego! Mas a quem? A que? Me entrego à magia que a dança ME proporciona. Não sei o que sente a dama que está comigo mas espero, de coração, agradar com meus passos, com o meu dançar. Agora, o que eu sinto quando fecho os olhos enquanto danço, por mais que tentem, por mais que eu explique, ninguém nunca vai saber nem durante e nem depois.
Já fechei muito os olhos para viajar em sonhos mas, muitas vezes, já os cerrei, também, para fugir de problemas que somem junto com a luz no meu “adormecer” momentâneo. Coisas, pessoas, momentos, situações… quanto já me defendi usando a dança como escudo e SEMPRE deu certo.
O fato, assim como meu pai sempre diz que “coração alheio é terra que ninguém anda”, ninguém nunca vai saber o que se passa por trás das pálpebras de alguém que as usa como cortinas fechadas diante dos olhos.
Uma coisa é certa, por trás daqueles olhos fechados, independente de quem seja, há de ter muito sentir, há de se encontrar o sentido da vida, momentos singulares de nossa existência, de dor e graça e há de ter muito mais graça, vida esta que também “termina” de olhos fechados.
